Voltando a coisas que verdadeiramente importam

by offarinha

A posição oficial e ne varietur deste blogue acerca do exercício narrativo de ontem à noite pode ser encontrada no post anterior.

Voltando agora a coisas que realmente importam. Ter a disponibilidade, e sobretudo a paciência, para consultar a imprensa todas as manhãs permite, indo para além da espuma nela tão dominante quanto irrelevante, perceber o que somos e onde estamos. Já ontem referi o caso daqueles médicos ladrões e as elevadas reflexões acerca dos pressupostos e limites do exercício da canonização clínica que proporcionou. Hoje lê-se que Portugal é o país europeu que mais demora a decidir processos. E ficamos a saber que cada processo demora quatro vezes mais tempo a ser concluído que a média da União Europeia. Quatro vezes são, neste tipo de assuntos, vezes exageradas. Um leigo nestas matérias percebe que o legislador usa deliberadamente processos legísticos em que a interpretação de um decreto constitui a decifração de uma charada ou a leitura esotérica das entranhas das aves (vide o recente caso do «de» ou «da»); esse leigo também associa isto à lucrativa profusão de pareceres de professores de Direito/decifradores de enigmas e ao frequente, e igualmente lucrativo, recurso a meia dúzia de escritórios de advogados/criadores de novos enigmas; também conhece o funcionamento dos Tribunais, a sua morosidade, a forma autista e pesporrente como habitualmente tratam quem deles tem a desgraça de necessitar, a soberba estratosférica adoptada por muitos juízes e procuradores e, sobretudo, o seu desprezo pela realidade (para esta gente a única realidade são as páginas dos códigos) e a forma como legitimam (vide as agendas ocultas, com o rabo muito de fora, das cúpulas do poder judicial e dos respectivos representantes sindicais) o seu lamentável poder.

O que esse leigo também sabe é que, mais uma vez, o poder destas corporações auto-referenciais, auto-legitimadas e auto-avaliadas tem consequências e custos terríveis. A irresponsabilidade da Justiça (em ambos os sentidos da palavra) só é limitada pelas conveniências dos seus protagonistas, sejam elas materiais ou simbólicas. Acompanhar uma sessão onde esta gente toda se aglomera é um exercício entre o filme de zombies, a comédia de costumes e uma série de Dennis Potter. Só que a defesa corporativa, a persistência de um poder ciosamente resguardado e construído com cumplicidades – e tráficos – alheias, repercute-se, de forma geometricamente difusa, progressiva e malsã, na vida social e económica. A este respeito ainda não foram ouvidos o bastonário da Ordem dos Advogados, os sindicalistas da praxe e as figuras de topo das magistraturas. Isto sem esquecer o líder de um vago observatório dos assuntos da justiça que, ou ainda chora Hugo Chavez ou está a pregar sobre a globalização na Amazónia andina onde, a ser assim, se deseja que permaneça. Se ontem foi o processo de canonização, estamos desejosos de saber qual a justificação teológica do dia.

Ainda a propósito de coisas que verdadeiramente importam, o Malomil dá-nos conta de mais esta.

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