Deontologia médica

by offarinha

Dizem que houve uns médicos que andaram a praticar umas vigarices no SNS. Como se sabe, fraude cometida por políticos constitui um escândalo babilónico. Quando a coisa se passa no sector privado, nem é preciso haver fraude – basta haver lucro legítimo para se instalar a gritaria. Neste caso específico, os sindicatos dos médicos desvalorizam a moscambilha e consideram-na «pontual». Se se insistir na denúncia, ainda vamos ouvir falar de «tentativa de destruição do SNS» e teremos, pela enésima vez, de suportar o Pai Arnaut. Não faço ideia (e, provavelmente, tendo em conta o jornalismo praticado, nunca se saberá excactamente) qual a dimensão e relevância da situação relatada. O que, de novo, se evidencia é o papel das corporações que vivem pelos e, sobretudo, dos serviços públicos, na legitimação ou, pelo menos, na menorização das ineficiências e da corrupção manifesta. Perguntas inocentes: porque será? Será que beneficiam disso? E, já agora e porque somos nós que pagamos, que benefícios são esses?

A saga corporativa atingiu o seu apogeu com a intervenção, a este propósito, do bastonário da Ordem dos Médicos. Parece que, ultimamente, é requisito da função ostentar semelhanças notórias com personagens de desenhos animados. O actual assemelha-se a uma ratazana de um cartoon da Disney dos anos 60. E o que diz este alto zelador da deontologia médica? Que a responsabilidade é exclusivamente das administrações hospitalares que pagaram indevidamente. Não se ouviu uma palavra sobre investigação de fraude, condenação de prevaricadores, princípios de responsabilidade e deontologia profissional, mau uso de dinheiros públicos, nada disto. O bastonário limita-se a enunciar o óbvio, sacode a água do capote, o dele e o dos que lhe passaram procuração para estes elevados fins, e espera que se passe, tão rapidamente quanto possível, ao caso seguinte.

Os princípios morais que povoam a cabeça desta gente, invariavelmente impune e sem vergonha, são os mesmos, mutatis mutandis, do Oliveira Costa, do Vale e Azevedo, do Isaltino, do Relvas e do entrevistado de logo à noite.

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