As mascotes (1)

by offarinha

Aqui há uns anos, o Jardim Zoológico criou um sistema em que as empresas, os clubes de futebol ou qualquer pessoa podiam adoptar um animal como mascote e, assim, contribuir para as suas despesas. Não sei se a prática ainda por lá perdura. Acontece que os artistas nacionais, sempre imaginativos na forma de recolectar apoios estatais, e o Estado, sempre alegremente disponível para este tipo de conúbios, resolveram inspirar-se no modelo da mascote. Assim, a Artista Contemporânea Nacional Joana Vasconcelos, foi adoptada – ou adoptou, tanto importa para o resultado pretendido – pelo Palácio da Ajuda e ocupou-o com a quinquilharia que produz. Já tinha adoptado uma mascote popular – o cacilheiro. Agora aristocratizou-se.

Ora se a volumosa Vasconcelos ocupa comodamente a Ajuda, porque não conceder ao igualmente volumoso Cabrita Reis, a Torre de Belém? E ao inteligentíssimo Julião Sarmento, a Batalha ou, talvez mais conforme à natureza do que faz, as Capelas Imperfeitas? Luís Miguel Cintra podia tomar como mascote o Palácio da Pena e Silva Melo o Castelo dos Mouros, de Verão, e o Palácio da Vila, no Inverno. Os arquitectos Siza Vieira e Souto Moura ver-se-iam limitados às obras por eles projectadas, embora nisto se possa adivinhar uma espécie de punição. Manoel de Oliveira tomaria como mascote todos os monumentos nacionais do Porto que são, de resto, poucos e pouco relevantes. O Convento do Carmo tomou na origem esta designação, decerto para acolher o humilde fadista com o mesmo nome. Para o Castelo de Almourol mandava-se o Maestro Vitorino de Almeida (com a filha-artista-deputada como barqueira). Dado que os fadistas parecem reproduzir-se como cogumelos, reservar-se-iam todas as igrejas da Arquidiocese de Braga para o efeito. Sousa Tavares, Rodrigues dos Santos e Margarida Rebelo Pinto alternariam semanalmente no Convento de Cristo, e Lobo Antunes sentir-se-ia, decerto, particularmente inspirado com uma residência em Mafra. Manuel Alegre é um caso de maior complexidade atributiva: a voz e a eloquência enfática ficam com os Jerónimos, tudo o que tenha a ver com Pátria, Liberdade e Portugal (grafadas sempre com maiúsculas muito maiúsculas), com Alcobaça, e o resto com a Sé Velha. Todos os cineastas premiados em Festivais de «curtas» na África subsariana, todos os jornalistas e apresentadores de programas de televisão (com as duas excepções referidas) que tenham publicado romances, todos os membros de grupos de teatro com nomes inenarráveis e todos aqueles cantores que julgávamos definitivamente sumidos e que, de repente, apareceram para cantar a «Grândola», toda esta gente tomaria, em simultâneo, como mascote, o Palácio da Mitra.

A ideia de ocupar um espaço público e, ainda por cima, tirar disso dividendos a pretexto do fomento cultural, é extraordinária. Por isso mesmo, é de elementar justiça lançar uma saudação reconhecida ao visionário que primeiro a concebeu e pôs em prática – o Grande Artista Português, Comendador Berardo.

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