O microfone hebdomadário

by jfc

Que dizer sobre os comentadores televisivos que não tenha sido já dito nos textos anteriores deste blogue e nas excelente crónicas de Alberto Gonçalves e de José Manuel Fernandes?

Poder-se-ia aplicar a esses comentadores uma das muitas coisas que Karl Kraus disse sobre os jornalistas: «Os jornalistas escrevem porque não têm nada para dizer; e têm alguma coisa para dizer porque escrevem».

O que é mais irritante nestes comentadores muito nossos é o facto de tentarem aparecer aos olhos do público como pessoas acima, ou ao lado, das lutas pelo poder e da intriga partidária. A espécie que mais tem alimentado o comentarismo nacional é a do ex-dirigente partidário que tenta fazer passar uma imagem de «independência», «isenção» e «equidistância», através de um discurso cuja legitimação assenta numa suposta, mas assumida, autoridade moral e política. Como se os êxitos anteriores os qualificasse para a análise e o comentário. Acontece que os mais notórios, pois são muito pouco notáveis, são dirigentes apeados de pequenos poderes ou inequivocamente derrotados pela realidade.

A figura do comentador adquire, assim, o estatuto de alguém que continua o seu combate político noutras instâncias e noutras circunstâncias. Não querendo, porém, apresentar o seu comentário como um acto de militância, gosta de surgir como pessoa a quem esse nível de proselitismo político já não interessa (excepção feita àqueles a quem o comentarismo interessa como forma de afirmação no interior do respectivo partido). Tudo isto é falso e é perverso.

Mas tudo isto já foi dito. Apenas acrescentaria que este tipo de comentarista não tem ideias (há muito poucas excepções). Ou se as tem são apenas para uso doméstico ou confidencial. Repetem fórmulas, ecoam mexericos, disparam setas com venenos variados, exercitam aproximações ou distanciamentos, ou, pura e simplesmente, ostentam vaidades. Não avançam ideias, apenas avençam presenças. E apenas por isso têm alguma coisa para dizer.

Mas o comentador corre ainda outros riscos. O risco da exposição permanente: é que não é fácil ter permanentemente coisas para dizer que acrescentem às que já foram ditas e reditas e que não estejam estritamente dependentes do bailinho dos acontecimentos diários. A tentação do microfone hebdomadário pode ser fatal, mesmo para almas mais bem-intencionadas.

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