A Voz do Profeta – Os comentários à entrevista

by offarinha

Há quem conjecture um «regresso da política» pela profusão de comentários televisivos. Para quem assim pensa, a política consiste apenas na continuação do comentário pelos mesmos meios, segundo os mesmos critérios e adoptando as mesmas perspectivas quanto a noções de permanência e fidelidade, princípios e finalidades, fundamento teórico e conceptual e limitações do pragmatismo.

Já havia uns jornalistas, normalmente ocupando lugares relevantes na estrutura das redacções, que, convencidos da imprescindibilidade daquilo que «acham» e sentido-se apoucados quando se limitam a informar sem enviezamentos, resolveram bombardear-nos diariamente com as suas vagas opiniões. Se descontarmos a inutilidade do exercício, pelo menos ganha-se em clareza. Depois, havia os comentadores profissionais, residentes ou saltitando de canal em canal, que aparecem a toda a hora – a solo, emparelhados, em modelo troika e, mais raramente, no estilo quadriga – derramando sobre qualquer assunto a sua sapiência palavrosa, normalmente vertida em frases feitas e lugares comuns e patetices ocas. Agora há esta moda do político que pretende continuar a sê-lo, ou a sê-lo acrescentadamente, pela via do comentário. O que acima se disse acerca dos jornalistas comentadores, aplica-se também aqui, embora a contrario sensu, e, por isso, eliminando a clareza e reduzindo a honestidade. Neste caso, há de tudo: políticos que preparam o seu regresso após lucrativa passagem pela actividade empresarial conluiada com o financiamento do Estado; políticos eleitoralmente derrotados (nalguns casos por sistema) e que, desta forma, logram a sua tribuna; gente reformada (alguma sem sequer disso ter consciência), semi-reformada, ou activa mas a querer ser ainda mais activa, que pretende continuar a emitir sinais de vida; e, obviamente, quem regressa tout court. Parece que a imprensa internacional tem-se mostrado surpreendida com mais esta originalidade do indigenato local e Alberto Gonçalves já disse o essencial sobre o assunto no DN de ontem. Curiosamente, é nos sítios onde esta gente se exibe que ouvimos abundantes queixas sobre as dificuldades de representação do sistema político, a necessidade do rejuvenescimento da classe política, os impasses resultantes da falta de novas ideias e de novos protagonistas, e outras inanidades do estilo.

Para além das diferenças de preparação, de inteligência, de qualidade do discurso, de intenção ou de objectivos, o que é comum a todo este entulho comentarista (com raríssimas e estimulantes excepções) é a ligeireza que se traduz na frase assassina que depois é amplificada por repetição, o tacticismo imediatista, o oportunismo intriguista que se destina a marcar território nas agendas próprias e alheias, a lógica do palpite e da repetição das ideias feitas e, bem entendido, o inevitável engraçadismo. Os nossos comentadores são Bouvards e Pécuchets sem, sequer, o esforço da informação.

Nos comentários à entrevista da próxima quarta-feira, vamos ouvir, de novo, falar de excelência da imagem, de dotes comunicacionais estonteantes, de capacidade auto-justificativa, de explicações e de legitimação a posteriori, de excepcional habilidade política, de tudo isto e de mais alguma coisa, tudo requentado e, sobretudo, definitivamente ultrapassado. Não será mencionado o único conceito aplicável – a culpa. E já nem falo de culpa no sentido criminal (o que nem seria despropositado), nem da culpa referida à quadra quaresmal (o que lhe daria, pelo menos, uma dimensão expiatória). Falo apenas da assumpção da culpa moral, dessa falha decisiva e persistente que nos colocou onde estamos, e cuja negação ou omissão, mais ou menos conscientes, não nos permitirão nunca daí escaparmos.

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