A Voz do Profeta – A entrevista

by offarinha

O entrevistado da próxima quarta-feira deveria ser confrontado apenas com dois tipos de questões.

O primeiro andaria em torno de como é possível duplicar a dívida pública em seis anos. Aqui caberia identificar, uma a uma, cada contrato de cada obra de construção civil, cada PPP, cada negócio obscuro, cada irresponsabilidade populista, cada inutilidade saloia, cada burla velhaca, e associar, a cada uma das manifestações de desgoverno, cada cêntimo nela delapidado.
O segundo trataria de identificar cada um dos danos a que a próxima geração (se calhar as duas próximas gerações), por causa dessa dívida, vai estar sujeita. Neste caso caberia identificar cada sacrifício, cada impossibilidade, cada retrocesso, cada custo, cada impedimento, cada dificuldade, e associar cada cêntimo do pagamento da dívida contraída a cada pormenor daquilo a que seremos irremediavelmente forçados a cumprir, bem como a cada detalhe daquilo a que seremos fatalmente obrigados a renunciar.

Conhecendo-se a impreparação, a subserviência, a cultura de respeitinho e as teias de cumplicidade conivente dos nossos jornalistas, sobretudo os da RTP, constituirá uma impossibilidade ontológica que os entrevistadores sejam diferentes do que essencialmente são e têm sido. Por causa disso, assistiremos à habitual complacência atenciosa e cooperante face a trivialidades desonestas, ao discurso auto-justificativo, à manipulação dos números e dos factos, à deliberada falsificação do passado. Aliás, não é de esperar outro tratamento para com um colega de profissão e, ainda por cima, a trabalhar na mesma empresa!

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