Um oboísta solitário

by offarinha

A Orquestra de Jovens Gustav Mahler esteve em residência artística entre nós durante cerca de um mês. Deve ter estado em regime de clandestinidade, a julgar pelo mutismo dos media, ocupados pelas trivialidades e pelo ruído a que concedem, quase em exclusivo, os seus favores. No último fim de semana iniciou a sua tournée de Páscoa com dois concertos na Gulbenkian, sob a direcção do jovial octagenário Herbert Blomstedt e, no primeiro, com o pianista Leif Ove Andsnes. Tive o privilégio de assistir ao segundo, integralmente preenchido pela Quarta de Bruckner, mas não é dessa experiência exaltante que aqui quero falar (relembrar, a propósito, a derradeira proposição do Tractatus de Wittgenstein).

A Orquestra é constituída por jovens músicos seleccionados anualmente em toda a Europa. Dos cem instrumentistas, apenas um português, o oboísta Tiago Coimbra (sem intuitos comparativos que tenham em conta a dimensão populacional, as possibilidades oferecidas internamente, ou outros quaisquer critérios, e a título meramente ilustrativo, havia dezoito espanhois, quatro eslovenos, dois polacos, um húngaro, cinco franceses, etc.).

A mitologia recente, aplicada sobretudo a propósito do elevadíssimo desemprego juvenil, salienta acriticamente que a actual geração é a mais bem preparada de todos os tempos. Há mais licenciaturas, mais mestrados, mais doutoramentos, mais pós-doutoramentos, mais pós-pós não sei o quê. E há mais gente a povoar e a usufruir de tudo isto. Não se discutindo os factos, aritmeticamente comprováveis, convém analisar as estatísticas e reflectir sobre elas. Associando-as, por exemplo, às dinâmicas económicas da socidade e, sobretudo, às configurações determinadas pelas opções políticas e culturais, isto se quisermos admitir que estas têm existido e não foram tomadas aleatoriamente.

Uma primeira questão que é pertinente colocar prende-se com a relação equilibrada e produtiva (produtiva em sentido lato, como adiante se verá) entre a proliferação de cursos existentes e as necessidades sociais. E não me refiro ao, há muito previsível, depósito de especialistas em Ciências da Educação, Sociologia, Psicologia, Comunicação Social, etc., nas caixas dos supermercados. Nem, em contraponto ao exemplo anterior (ou talvez nem tanto), ao tão supostamente explosivo, quanto até agora imperceptível, aproveitamento empresarial que deveria estar a ser feito dos inúmeros e sagacíssimos detentores dos MBAs obtidos nas muito internacionalmente reconhecidas e badaladas Faculdades de Economia e Gestão. Refiro-me a outras coisas: uma consiste na relação entre a obtenção de um diploma e o estar preparado para exercer uma profissão, seja ela qual for. Ou seja, na atávica legitimação pelo canudo de Dr. e Engº, independentemente da fragilidade do que está por detrás do título académico. Outra consiste na determinação de um elenco de cursos profissionais que tenha em conta a sociedade e a economia reais. Outra ainda, e não menos importante apesar de uma certa vulgata vigente, na definição das necessidades relativas às exigências de um tecido social saudavelmente diversificado do ponto de vista cultural. Ainda recentemente, um economista, daqueles cuja actividade consiste apenas em dar palpites em jornais, anatematizava os cursos de História e das Humanidades em geral por «improdutivos». A questão, posta nos termos em que o foi, é absurda. A questão é a de se optar, a montante e ainda que de forma necessariamente difusa, pelo papel exigido às Humanidades (a designação Ciências Sociais é detestável) e às Artes, sem confundir o seu tratamento com outras áreas do saber, sem as subalternizar face ao imediatismo produtivista e sem as sobrevalorizar com base em qualquer forma de snobismo intelectual. Qualquer perspectiva redutora neste domínio, seja em que sentido for, é tão provinciana e ineficaz quanto a da bravata do produtivismo imediatista, ou a da «vamos formar toda a gente seja no que for que isso é um direito e depois logo se vê».

Outra questão diz respeito à massa crítica produzida, nos últimos anos, pela massificação de todos estes cursos e graus de formação (de salientar aqui o papel positivo da Fundação para a Ciência e Tecnologia). A dimensão quantitativa é, obvia e genericamente, considerável em todos os domínios. A análise qualitativa já levanta algumas interrogações. Se optarmos por uma divisão por áreas de formação, numa abordagem empírica, parece que as Ciências, as Engenharias, as Ciências médicas e a Arquitectura têm conseguido níveis qualitativos apreciáveis nos vários escalões de formação. Se, porém, passarmos para as Humanidades e para as Artes, o panorama muda de figura. Aqui, tudo parece apontar para a formação de investigadores ou profissionais de topo (e, mesmo assim, em sectores muito limitados), deixando-se os escalões intermédios abandonados a uma indigência intelectual confrangedora. A fenda entre o topo (pouco povoado) e o resto é abissal. A título de exemplo, se é possível constatar um incremento da investigação histórica, da sua qualidade e (muito importante) da sua divulgação; ou de um acréscimo de músicos com formação e nível internacionais, o certo é que, por um lado, se trata de uma evolução muito limitada no número de abrangidos e, por outro, essas rarefeitas clareiras de excelência ocultam a terrível mediocridade dos níveis de formação intermédios. Ao focarmo-nos, como é natural, na excelência, tendemos a esquecer a penúria do resto e, o que não é de desprezar, a repercussão dessa penúria nos mecanismos de reprodução do saber.

Em termos comparativos com a Europa, temos pouquíssimas orquestras e, mesmo essas, estão cheias de músicos estrangeiros. O mesmo se passa com os professores das nossas escolas de música. Depois, temos alguns instrumentistas de bom nível, e não me refiro apenas a concertistas. Se se averiguasse quantos músicos portugueses ocupam estantes em orquestras estrangeiras, sobretudo nas muitas que há em Espanha, os resultados seriam surpreendentes. Devemos congratularmo-nos com a presença do nosso jovem oboista (por acaso, ou talvez não, a estudar em Zurique), bem como com todos os outros (normalmente um ou, excepcionalmente, dois em cada ano) que têm tido o mérito para aceder à experiência de participar nos trabalhos desta grande Orquestra. Mas a solidão do oboísta português, no meio dos seus cem colegas europeus, é também a metáfora de um estado de coisas.

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