O Professor Marcelo

by offarinha

Perambulava ontem pelos diferentes canais televisivos e fixei-me, por minutos, no comentário do Prof. Marcelo. Não o ouvia há bastante tempo e a revisitação foi proveitosa a título de reforço de uma vacina que tinha começado a perder efeito.

O Prof. Marcelo representa tudo o que de negativo se possa dizer sobre a opinião pública. Deve ser esta, aliás, a única serventia da criatura – a da personificação de um estereótipo da fraude.

Em primeiro lugar, o Prof. Marcelo aparece sempre com muitos livros. Para a populaça analfabeta, a associação a livros remete necessariamente para a sua leitura e para uma aura de superioridade intelectual (efeito semelhante ao do status obtido por via do número de lombadas, entrevistos atrás de bibelots diversos, na estante da sala).

Depois, o Professor é superficial e cansativamente óbvio. Fala de tudo acrescentando nada, desde política agrícola europeia a futebol dos regionais, das finanças do Zimbabwe até à organização dos serviços de saúde no Kiribati. Do zero ao infinito, vai passeando a sua vacuidade com muita ligeireza, mas sempre com um embrulho fluentemente palavroso e olhar vivo, para dar um ar de infalível prescrutação dos segredos ocultos nas profundidades abissais de uma poça de água. O Prof. Marcelo apresenta-se como tão, tão inteligente!!!

Em terceiro lugar, é um grande comunicador! Aliás, para ele não interessa o que se diz, o que importa é debitar opiniões através do tal embrulho dialéctico. Desta perspectiva, o Prof. Marcelo apenas oscila entre o aldrabão tradicional que convence acerca dos poderes terapêuticos da «banha de cobra» e o aldrabão mais moderno que vende um automóvel em quinta mão diminuindo a quilometragem. O Prof. Marcelo confunde deliberadamente comunicação com a vigarice mais ordinária. E, para este fim, é importante nunca ser definitivo sobre nada – os contornos do sim, do não e do talvez são intencionalmente esbatidos e equivalem-se como garantia de infalibilidade preditiva. Ouvi-o ontem a depreciar o Ministro Gaspar apodando-o de «astrólogo». De repente, fui transportado para um congresso de ocultismo, com a cartomante a desvalorizar a concorrência para acrescentar clientela.

Em quarto lugar, o Prof. Marcelo cultiva um patrioteirismo e um chauvinismo soez: os espanhois (a sua bête noir), a Sra. Merckel e os alemães, os europeus de países ricos, os americanos, ou seja, tudo o que não fala português ou não partilha a nossa tristonha condição, merece ser tratado com a subtileza e a elevação de um carroceiro. Se acrescentarmos muitas bandeirinhas nas janelas, muitas referências aos emigrantes e à excelência dos produtos nacionais, temos o quadro completo.

Finalmente, o Prof. Marcelo cultiva com unção uma característica repulsiva: diminuir e atacar quem está na mó de baixo (ou quem a imprensa e a tal opinião pública decidiram que o está, independentemente da justeza dos motivos) e glorificar aqueles para quem os ventos sopram de feição. O Prof. Marcelo confunde falta de carácter e de convicção com independência e espírito crítico!

O sucesso do Prof. Marcelo resulta do facto de procurar acompanhar, sempre e incansavelmente, aquilo que a populaça vai ouvindo e repetindo como um mantra sugerido pela comunicação social. A opinião pública, como se sabe, alimenta-se da doxa, vive através dela e endeusa-a. E a doxa é o único terreno habitado e cultivado pelo Prof. Marcelo. Diz o que a populaça quer ouvir, porque é o que esta também diz e, deste modo, se sente legitimada para continuar a dizer pela intervenção de um catedrático de Direito que mostra muitos livros. O espaço de comentário do Prof. Marcelo é o de uma barbearia de província em que o boticário pontifica.

Voltando ao reforço da vacina. Ontem, o católico Prof. Marcelo repetia os lugares comuns ouvidos ultimamente sobre o novo Papa. Aquela mulherzinha, com ar atoleimado e atavio de cabeleireira de subúrbio que o acompanha, interrompeu-o com uma cintilação bovina no olhar: “Mas, professor, porque é que a Igreja perdeu estes últimos oito anos e não elegeu antes este Papa?” E o Prof. Marcelo, com a espessura intelectual de uma folha de papel, respondeu, referindo-se a Ratzinger: “Não sei! Mas que perdeu oito anos, perdeu…” Que repugnante sevandija!

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