Bruckner

by offarinha

Num texto publicado no jornal Expresso, Pedro Mexia escreveu sobre Bruckner: «A música de Bruckner está assombrada por ecos de um paraíso perdido, talvez apenas inventado ou desejado, é uma música cheia de “furor e introspecção”, como já se disse, potenciada, e não diminuída, pela personalidade do compositor, que é evidenciada, e pela sua biografia, que nunca é exposta. Bruckner sublimava as suas fraquezas e tristezas, de acordo, mas sublimava-as em sublime. Aquilo a que a crítica chamou incoerência ou gigantismo é na verdade uma sucessão comovente de movimentos grandiosos e doces, de passagens contemplativas e fortíssimos empolgantes. Música instável, harmónica e às vezes dissonante, com mudanças e hiatos, música de um homem que existia entre a serenidade da fé e a dúvida em si mesmo, um homem bom, deprimido, honrado e infeliz». Pedro Mexia coloca Bruckner sob o signo da ideia de renúncia, «uma das ideias mais difíceis e impopulares, e que nunca terá legiões de fãs como a música para semideuses», evitando assim a habitual comparação epigonal com Wagner, que tanto contribuiu para a desvalorização do compositor.

O ponto de vista de Mexia, claramente psicologista, merece um aditamento e uma correcção. O choque entre violência e apaziguamento de blocos sonoros excessivamente contrastantes, a alegadamente monótona e incongruente estrutura da composição, o carácter exageradamente enfático e prolongado dos temas face ao respectivo desenvolvimento, remetem para uma dimensão de carácter religioso ou, se se quiser ser mais exacto, metafísico. A música de Bruckner é a música de Parménides, a música do Ser que visa harmonizar (pela sua obliteração) os contrários, que pretende reduzir à simultaneidade e mesmidade a sucessão e a diferença, que anseia pelo momento de resolução da espiral dialéctica ao finalmente atingir o seu apaziguamento. Bruckner aspira, de uma forma aparentemente paradoxal tendo em conta a utilização que faz da arquitectura dos meios orquestrais, à imobilização e plenitude, à transcendência e ao infinito estáticos. A respiração sonora, feita de extensões e distensões excessivas, de contrastes inspiração/expiração controlados como os do atirador com arco, as explosões emocionais em torno de uma trama simplificada ao essencial, os crescendi e diminuendi em paroxismos de gigantismo sinfónico tratado com a economia exacta de música de câmara, tudo isto remete, não apenas para o «sacrifício e compulsão» identificados por Mexia, mas para o desespero e, sobretudo, para a resignação de quem não tem a Deusa que o oriente no caminho do Ser.

Nesta perspectiva, o sinfonismo de Bruckner constitui-se como um haiku musical desmesurado. Nada de mais anti-wagneriano! Na edição da obra sinfónica de Bruckner por Sergiu Celibidache – o bruckneriano por excelência – com a Filarmónica de Munique, as capas dos CDs e os booklets são ilustrados por jardins japoneses de inspiração zen. Era conhecida a proximidade do Maestro com a filosofia zen. Num ensaio da Quarta Sinfonia, um dos músicos comentou para um colega, após meia hora de trabalho em que finalmente se teria atingido, num detalhe, o som original cósmico libertado do peso da matéria: “o Om em mi bemol!” Nessas ilustrações de sulcos serpenteando em torno de pequenos montes de cascalho, de pedras e de afloramentos arbustivos encontra-se a busca hesitante, incerta e indecisa – mas resoluta – do Ser. Só que se sabe que, pela cegueira dos homens sem norte, os sulcos são caminhos que não conduzem a parte alguma. Ou seja, tudo se resume apenas a uma disciplina da redenção possível.

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