As fraldiqueiras

by offarinha

Nos primeiros volumes da Conta-Corrente, Vergílo Ferreira, então ainda professor no Liceu Camões, refere-se várias vezes, com ironia ácida e uma graça certeira, às «fraldiqueiras do soviete do meu liceu». Tratava-se de umas mulherzinhas que, logo após o 25 de Abril, tomaram o poder nas escolas e aí impuseram as suas concepções políticas e pedagógicas. O império desta gente, tirando o aspecto político – que se foi atenuando ou disfarçando – disseminou-se, fortaleceu-se e rapidamente se tornou preponderante. As fraldiqueiras das escolas, as fraldiqueiras que foram abarrotando os incontáveis gabintes do Ministério da Educação e as fraldiqueiras destacadas nos sindicatos constituiram uma troika que impôs, sem dificuldade e com a cumplicidade de uns e a indiferença de outros, o seu poder «soviético».

Como estamos a falar de quase quarenta anos, é claro que a aparência das fraldiqueiras foi sofrendo transformações. A sua essência é a mesma: ignorância incomodativa e convencida de semi-letrado, limitação intelectual e consequente atrevimento, preparação indigente que se manifesta no desejo histérico de querer estar sempre em linha com a última moda (sobretudo se esta for light), seja a que propósito for. E, acima de tudo, espírito de amanuense de repartição que apouca o maior dos burocratas: o seu critério de importância é aferido pela quantidade e duração das reuniões que promove, ou em que participa, ou a que obriga outros a participarem, bem como pelo volume de papel com que convive e com que obriga os outros a conviver. Uma tristeza!

Já tem sido bastamente analisada e criticada esta tendência, sobretudo nos seus malefícios pedagógicos. Temo, aliás, que um dia destes teremos (se é que já não temos), através de um processo apropriativo e de adaptação para a sobrevivência, fraldiqueiras do anti-pedagogês. Para quem se encontra, felizmente para eles, longe deste pequeno mundo, apenas alguns exemplos que ilustram a deriva fraldiqueira:

  • As Bibliotecas adoptaram a designação pomposa de Centro de Recursos; à alteração onomástica correspondeu apenas o terem-se tornado em Salões de Jogos de computadores. As fraldiqueiras deliram com estas metamorfoses!
  • A literatura é desvalorizada deliberadamente. O seu estudo oscila entre a memorização de «resumos» e uns vagos «contratos de leitura». As fraldiqueiras que ensinam (?) Português – porque detestam ler, sobretudo a grande literatura – obrigam aos tais «contratos de leitura» em que o aluno tem de apresentar um relatório sobre o livro que leu. E o livro que leu tanto pode ser a Odisseia, como um da Margarida Rebelo Pinto; Machado de Assis, como Rodrigues dos Santos. Tudo se equivale no universo das fraldiqueiras!
  • A palavra escrita é menorizada ou abandonada (parece que é difícil e os alunos não gostam, critério prestigiado para as fraldiqueiras), tanto na dimensão da sua interpretação como na da sua produção. Nunca se usou, tanto e tão despropositadamente, recursos visuais (sucessivas aulas de Filosofia e História passadas a ver filmes que poderiam sê-lo noutro sítio e momento), conteúdos da Internet (sem hierarquia, discriminação crítica e critério), power-points (simplesmente exibidos e lidos pelas professorinhas, para seu descanso e tédio de quem as ouve). As fraldiqueiras das Ciências Sociais abominam, por desconhecimento e temor, tudo o que seja vizinho do pensamento!
  • E que dizer do ensino da Matemática através dos processos do construtivismo serôdio? Qual será o proveito, para o domínio do raciocínio matemático, da construção de árvores de Natal em miniatura? E não, não me refiro a alunos dos primeiros anos – antes aos dos últimos anos do secundário! As fraldiqueiras não sabem explicar, não lhes interessa saber e incomodam-se com este tipo de perguntas!
  • Numa palavra, tudo tem de ser ligeirinho, simplificado e infantil. Ou seja, à dimensão do que as fraldiqueiras são e do que sabem, e legitimado porque é moderno e toda a gente faz assim.

Na sua evolução, as transformações introduzidas pela Ministra Maria de Lurdes Rodrigues constituiram, digam o que disserem, um momento alto na vida das fraldiqueiras. Se a coisa já não primava pela qualidade, assistiu-se, nessa altura, à ascensão a lugares de reponsabilidade de nibelungos que um juízo avisado não se atreveria a colocar atrás de um balcão de mercearia na Damaia. Com a introdução da avaliação dos professores, as fraldiqueiras mais incapazes atingiram, como dizia um dos seus pares, «o auge da sua proporção». E entupiram os órgão de decisão… Atolaram as Direcções, preencheram os Conselhos Pedagógicos ( o órgão escolar onde tomam assento as fraldiqueiras mais exuberantemente fraldiqueiras), as Comissões e Secções disto ou daquilo, os diversos Grupos de Trabalho… E produziram muito papel, quase sempre de qualidade inferior… E, sobretudo, puderam exercer o seu poderzinho de julgar os outros à luz dos seus lamentáveis critérios… Trata-se de gente cuja taxionomia balança entre a criada Juliana, o Conselheiro Matos Ferro (aquela figura do Conde de Abranhos que singrou na vida pronunciando-se sobre tudo com um expressivo «Ele há questões terríveis!… Ele há muitas questões!…») e personagens camilianas a espojarem-se sobre as mesas, depois da ceia, a tirarem, com as unhas, lascas de bacalhau das luras dos dentes. Fariam a delícia de Lombroso…

Num extenso relatório da OCDE (ver aqui), a ser apresentado na próxima quarta-feira num congresso em Amsterdão, são feitos dois reparos ao modelo de avaliação vigente em Portugal: o primeiro prende-se com o facto deste não se encontrar associado aos resultados dos alunos; o segundo com o facto de não se basear naquilo que os professores fazem efectivamente na sala de aula. A OCDE, mesmo na sua langue de bois, constata o óbvio ululante: que raio de modelo é este que ignora o que é mais importante e decisivo numa profissão? Então os resultados obtidos pelos alunos são irrelevantes? Então, o máximo a que se pode aspirar (e apenas por requerimento expresso do próprio) é assistir a duas (não, não é engano, são mesmo duas) aulas das centenas que cada professor dá ao longo de um ciclo avaliativo de anos? As fraldiqueiras não atendem a estas questões menores. Para elas, a avaliação incide, não sobre o que os professores fazem e respectivos resultados, mas sobre os documentos em que os professores descrevem a excelência daquilo que supostamente fizeram. Não se imagina as horas perdidas pelas fraldiqueiras a elaborar fichas, grelhas, critérios e modelos de relatórios. E, depois, as horas a preencher tudo isto. E, finalmente, a ler esta documentação e a concluir com a tal almejada avaliação. Que a realidade fique de fora, isso não parece incomodar o espírito fraldiqueiro que atinge prazeres inconfessáveis com tais procedimentos. Para ele, o essencial é que tudo esteja conforme à documentação produzida, aos objectivos elencados (palavra muito apreciada neste contexto) e às estratégias implementadas (outra das tais palavras). O que verdadeiramente conta é poderem, finalmente, alvoroçar o seu poderzinho discriminatório e frustre.

O mais surpreendente é que todo este processo é, se bem que insuportavelmente maçador, relativamente inóquo. Há uns poucos que são considerados excelentes (obviamente as fraldiqueiras mais conformes às fraldiqueiras avaliadoras), outros que são avaliados como muito bons (ligeiramente menos fraldiqueiras, segundo os critérios) e todos os demais como bons. A excepção a esta regra é residual. E de todo este frenesim não resulta nada, a não ser a excitaçãozinha fraldiqueira. Não há professores maus! De resto, tal como acontece com juízes, amanuenses e funcionários públicos de toda a sorte. Quem concebeu este morosíssimo processo parece ter tomado como mentor o Padre Américo e considerado que a Administração Pública  é uma gigantesaca Casa do Gaiato.

O pior de tudo, e o mais lamentável, e o mais penoso, não é o poder e a legitimidade das fraldiqueiras nas escolas. O pior é já não haver nelas, por tudo ter sido feito para que nelas isso não possa jamais acontecer, nenhum Vergílio Ferreira.

Nota – O facto de ter sempre usado neste post o género feminino não decorre de nenhuma questão de género. A realidade é que a fauna que povoa as escolas é esmagadoramente feminina. Daqui não se pode concluir, hélas, que o fraldiqueirismo seja um exclusivo de fêmeas. Como em todos os demais aspectos, encontra-se equitativamente distribuído por todos os géneros hoje habitualmente contemplados. O que, mais uma vez, torna ocioso e inútel um sistema de quotas.

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