A matilha de Pavlov

by offarinha

Basta que alguém se afirme de esquerda – não importa de qual delas; fale de justiça – ainda que os factos demonstrem que a ignora e que despreza a independência do poder judicial; clame contra a pobreza e a desigualdade – apesar dos indicadores mostrarem que ambas aumentam; se apresente como um paladino da liberdade e da democracia – não importa os tratos de polé a que as submete, nomeadamente no que respeita ao controle da imprensa pela censura e à impunidade da violência selectiva; e, sobretudo, seja ferozmente anti-americano e anti-capitalista. Basta, dizia eu, que alguém assim se apresente, que a nossa imprensa logo reage babando-se e abanando a cauda, desvalorizando e omitindo tudo o mais, desde as declarações e atitudes ridicularizadas caso o protagonista fosse de outra área, até situações decerto tratadas com indignação e gritaria noutro contexto. E, pior que isto, ignorando ou escondendo ostensivamente a realidade por cegueira ideológica, calculismo ou simples desonestidade.

Vem isto a propósito das hagiografias produzidas na nossa imprensa sobre Hugo Chavez. Merecedoras de outro tipo de reparos estão as mais que institucionais tomadas de posição do Estado português (mesmo tendo em conta as circunstâncias), bem como a esclarecedora quebra de silêncio do estudante de Paris/delegado farmacêutico da América Latina. Estranha-se a ausência nas exéquias, pelo menos até ao momento em que escrevo este post, do Prof. Boaventura, que não costuma perder a oportunidade proporcionada por este tipo de solenidades para nos iluminar com a sua clarividência.

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