A Voz do Profeta

by offarinha

Para quem não tiver disponibilidade, ou pachorra, para seguir os noticiários do próximo fim de semana, aqui antecipamos o essencial. No sábado:

  • tratou-se da maior manifestação de sempre, ou quase igual à maior manifestação de sempre, ou uma manifestação imensa semelhante a outras grandiosas manifestações igualmente grandiosas;
  •  protestaram e indignaram-se dezenas de milhares de pessoas, ou várias dezenas de milhares de pessoas, ou muitas dezenas de milhares de pessoas, ou mais de uma, ou duas, ou três, centenas de milhares de pessoas. Tanto faz, o que interessa é que estamos perante uma hiper, mega, maior que a maior (ufa!) demonstração de todas as demonstrações de indignação;
  • estiveram pessoas de todos os quadrantes ideológicos, embora só sejam entrevistadas sempre as mesmas e sempre dos mesmos quadrantes ideológicos. Subentende-se que as outras estavam clandestinas;
  • os repórteres são meta-manifestantes, ou seja, alguém que está lá com a função de amplificar a manifestação de que são (meta-) participantes;
  • o tom é muito emotivo e sentimental; há muitos casos pessoais (e/ou de familiares próximos,  conhecidos, amigos e colegas) dramáticos, entre o realismo socialista e o «Marcelino, pão e vinho». As questões andam à volta «do que sente?», «quais são as suas emoções?». Qualquer pergunta que introduza um módulo de racionalidade em torno de questões políticas e económicas objectivas é, obviamente, despropositada e descabida neste evento dominado pelo pathos;
  • aos desacatos que ocorreram posteriormente são absolutamente (sublinhado forte) alheios os ordeiros organizadores e manifestantes. Isto, apesar de se identificarem, entre os tipos que incendiaram, destruiram e apedrejaram, uns colaboradores da CGTP/PCP e uns assessores do BE. É claro que a polícia, quando tentou limitar os desacatos (não se tratou sequer de os impedir, travar ou reprimir) terá usado – antes mesmo de a usar – de uma força desproporcionada. Daqui a uns dias, os tais que são alheios à violência interpelarão seja quem for sobre a inusitada repressão;
  • os comentadores de serviço comovem-se com tudo isto, desculpam tudo o que tiver de ser desculpado, legitimam tudo e mais alguma coisa com os conceitos da filosofia política que eles próprios engendraram, à pressa e com o inestimável contributo do Prof. Boaventura Sousa Santos, e demonstram, com razões lá muito deles, que o Governo, a troika, a UE, o universo inteiro, incompreensivelmente, não perceberam o que eles, e todos os esclarecidos manifestantes, perceberam e, generosamente, partilham com quem não os quer aturar;
  • contra todas es expectativas, o Sporting derrotou o FCPorto em Alvalade.

No domingo:

  • toda a gente – jornalistas e entrevistados (de preferência os mesmos) e comentadores da véspera – dizem exactamente o mesmo, mas noutro registo. Agora mais repousado, menos esganiçado. As tais questões que possam introduzir um módulo de racionalidade e de objectividade propositiva permanecem de fora;
  • o Prof. Marcelo manifesta-se muito compreensivo (excitadinho, vagamente frenético e com a gosma habitual) com as razões dos manifestantes. Acerca de tudo o mais (seja o que for) entende que sim, embora, noutra perspectiva, seja talvez e, ainda noutra, igualmente recomendável, seja nunca em qualquer caso.  A questão do Governo, do PR, do PS, da Europa, do mundo e da D. Judite é um problema de comunicação. Graças a Deus, para Ele e para todos nós, que esta questão não o afecta a si próprio;
  • o Benfica venceu folgadamente em Aveiro.

Apostila – Quase todas as profecias deste post são uma brincadeira despropositada e sem sentido. Decerto não se verificarão, muito menos do modo como a Voz do Profeta as antecipa. As duas únicas excepções, que correspondem ao critério do nosso jornalismo, a saber, a realidade que relatamos é aquela que espelha e reproduz  os nossos desejos e expectativas, são as duas notícias desportivas. Seguindo esse critério, a de domingo é muito mais credível que a de sábado.

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