Ortopedia jornalística

by offarinha

Nelson Rodrigues vituperava os idiotas da objectividade. Certamente que os jornalistas e repórteres portugueses – nomeadamente os dos soi-disants jornais de referência – não pretenderam homenagear o Mestre com a sua cobertura das eleições italianas. Isto porque, não sendo deliberadamente objectivos, a sua subjectividade foi de pacotilha, ideologicamente enviezada e submetendo a realidade a tratos de instrumento ortopédico, cujas potencialidades distorcivas nem a um Piranesi terão ocorrido nos seus Cárceres.

Usando o exemplo, sempre edificante, do jornal da D. Bárbara, verificamos que o jornalista deve sempre ser o mesmo (ou a realidade, contra todas as probabilidades, se repete), sejam as eleições espanholas, francesas, americanas ou italianas. A campanha eleitoral, o posicionamente e evolução das forças em presença, os resultados e respectiva leitura sujeitam-se sistematicamente aos mesmos instrumentos de correcção clínica. Só a esquerda (de preferência, alguma esquerda) tem legitimidade para ganhar – a direita está associada a interesses inconfessáveis – os seus votantes são ignorantes e alienados – à medida que a campanha avança, a esquerda perde terreno sem que se perceba bem porquê – a direita ganha, mas isso foi por causa disto ou daquilo, e a esquerda quase ganhou (esta é a caixa), ou os resultados apontam para um impasse – a esquerda ganha, e os resultados são apresentados de acordo com critérios semelhantes ao da Lucas. Importante é realçar que a ortopedia é democrática e igualitária. O que se usa cá dentro é exactamente o mesmo que se usa seja onde for.

A coisa pode também sofrer pequenas oscilações, seja por maior subtileza intelectual, seja por interesses, seja por outro motivo qualquer. Tome-se, por exemplo, o referencial hebdomadário do mano Costa e do sacripanta Nicolau. O exaltante é comparar o que eles dizem com a imprensa internacional e, sobretudo, com o que da realidade vai, intersticial e inevitavelmente, ululantemente emergindo.

Desde há muito que defendo, sem ironia, que, quem se quiser informar em Portugal, deve ler o «Correio da Manhã». O que diz muito menos acerca da qualidade do dito do que sobre a desonestidade da concorrência.

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