A máscara política

by jfc

Fui obrigado, há pouco tempo, a marcar um «atendimento» na Segurança Social para tratar de um assunto. Lá fui, à hora marcada. Fui atendido. Há muito que não era forçado a ir a uma destas praças fortes do Estado Social. A última vez fora ao Instituto do Desemprego, mas, como diria Nelson Rodrigues, não era isso que eu queria contar.

O que queria contar era como o atendimento foi caótico. Havia várias funcionárias entricheiradas atrás de umas mesas (de escola), com o indispensável monitor. A sala não estava muito cheia de gente. A agitação era toda do lado de lá das secretárias. As senhoras trocavam impressivas exclamações umas com as outras (por vezes umas contra as outras…) ao mesmo tempo que atendiam as pessoas. Gritavam censuras, declarações, sugestões, indignações, conformações. Aterrador.

Um desgraçado que esperara um mês para ser «atendido» nessa manhã, não o foi, mas prometeram que o atendiam à tarde, só que a pessoa que estava de manhã já não estava à tarde, os serviços «lá de cima» não atendiam o telefone, tinham ordens – disse uma das senhoras – «as lá de cima» tinham ordens para não atender os telefones; uma outra afirmou veemente que isso não podia ser enquanto outra declarava que nunca telefonava «lá para cima», o que não sabia resolver não resolvia.

Ao meu lado, um dinossauro impecavelmente maquilhado dizia a uma jovem ruborizadíssima: a menina nem parece parva, tem um arzinho simpático, até é bonitinha; não sei se a jurássica senhora estava do lado da razão, mas só de ouvir a coisa o pulso acelerou.

A senhora que me atendeu foi muito simpática comigo, tirando o facto de ter feito e dito mil outras coisas enquanto me «ouvia». Fiquei contente: deu-me toda a razão. Soube agora que a minha reclamação foi «deferida» em sentido contrário ao pretendido.

Agora, imagine-se que, perante aquele cenário caótico a ira se sobrepunha e eu desatava a gritar impropérios. Ou que atirava uma cadeira para deter, certamente em vão, o discurso do dinossauro. Claro que, dois minutos depois, os seguranças apareceriam e em breve eu estaria a levar com o impetuoso vento do Areeiro na cara.

Vou ter de lá voltar.  Mas desta vez não me apanham desprevenido. Vou levar dois ou três amigos e, se a coisa se repetir, cantamos o «Grândola, Vila Morena», exibimos uma cartaz contra a destruição do Estado Social, dizemos uns palavrões, até podemos fazer umas diabruras ao dinossauro, se lá estiver, e ninguém nos toca. Ninguém. E serei ouvido.

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