Humanidade com gente dentro – uma homenagem

by offarinha

Há quem auto-construa a sua legitimidade a falar sobre e em nome da Humanidade. Só que essa Humanidade é uma abstracção vazia que ignora as pessoas. Daí a brutalidade, mais ou menos violenta, ou desprezo, mais ou menos manifesto, pelo que elas são em concreto e permanece alheio à reconfortante abstracção. O horror consequente, bem como o seu contrário – o cuidado pelo individual – são o tema do dilacerantemente épico Vida e Destino de Vassili Grossman.

Numa escola de meninos classe-média com paizinhos classe-média, há um menino pobre com mãe pobre. Para as suas tarefas escolares, o menino precisa de uma máquina de calcular que a mãe não tem dinheiro para comprar e a escola também não disponibiliza apropriadamente. Chegados aqui, num guião neorrealista pró-Humanidade, podíamos convocar uma manifestação de indignados, promover uns discursos contra o governo, a troika e os malefícios do capitalismo (preferencialmente pelo Sr. Nogueira), cantar a «Grândola Vila Morena» ou dançar a tarantella em versão pós-moderna, pendurar umas faixas pretas ou outros mimos do estilo.

Um professor (que vive apenas do seu salário e tem família), conhecedor da situação do menino, resolveu falar com a mãe e combinaram – a senhora entra com o que pode e eu com o resto e não se fala mais disto com ninguém. E assim foi, e assim o assunto foi resolvido. As razões do professor não me importam (não é estrela pop, de televisão ou cinema, nem político em campanha, nem funcionário de uma ONG a promover-se, e isso basta para o efeito). O que me emocionou foi a discrição, o pudor e o desprendimento subtil do gesto. Os defensores da Humanidade e do Estado Social dirão que é caridadezinha e que blá blá blá. Eu digo que é Caridade (e não solidadariedade)! E quem não conhecer o sentido da palavra, que vá aos clássicos sem preconceitos moderninhos, ou veja o que Ratzinger/Bento XVI expõe sobre o assunto, mesmo retirando-lhe a dimensão da Fé.

Soube disto por acaso e o que, em mim comovido à distância, ficou, foi a radiante expressão da mãe e o tranquilo semblante do professor. Com o ar de quem acabou de beber um copo de água.

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