Tiques culturais de esquerda

by offarinha

O Primeiro Ministro foi interrompido na Assembleia da República por um grupo de protestantes cantores. Os jornalistas presentes logo se precipitaram sobre os canoros manifestantes para nos informarem de que se tratava de representantes do povo amordaçado. Tudo isto só provocaria um sorriso, não fora o PM não ter conseguido deixar de exibir uma simpatia condescendente pelas criaturas. O PM sabia que, se lembrasse que quem representava alguém era ele e os deputados eleitos (que, nestes casos, também guardam sempre um silêncio envergonhado), mesmo aqueles que deliram com manifestações quejandas e delas se aproveitam como suplemento da sua limitada legitimidade, seria motivo de chacota nos telejornais. E teve receio por isso. E ignorou (ele e os deputados) os milhões que são representados através da única forma civilizadamente admissível – o voto.

Há uma ruidosa manifestação qualquer, pequena ou grande não importa, da malta de esquerda de todos os tempos e costumes. Amplificada pela comunicação social, a seguir é pedido um comentário ao Governo, aos deputados, ao Presidente da República. Respondem sempre com ar grave, proclamando o óbvio – respeitam o direito de manifestação -, e o menos óbvio – o seu profundo respeito e atenta veneração pelos manifestantes e as suas razões. E, cobardemente, não se atrevem a mencionar a incomensurável maioria que não alinha nestes números e os abomina, maioria de quem receberam a legitimidade para estarem onde estão. Porque sabem que, se os confrontassem com isto, os abençoados jornalistas encontrariam forma de os ridicularizar usando todos os bordões imagináveis que a esquerda (a que está implantada nas suas cabecinhas e a dos figurões que por aí andam) disponibiliza.

Um ex-Secretário de Estado que, durante a sua semi-clandestina passagem pelo cargo foi muitas vezes tratado pelo «meio cultural», com compreensiva nostalgia, por «o nosso Francisco», quis-se demarcar vigorosamente do seu passado. E, no regresso ao tal «meio cultural» como «nosso Francisco», agora em versão integral, ameaçou uns vagos fiscais, com a coragem que antes lhe faltou, com o «ir mandá-los tomar no cu». Logo o impagável Ministro Relvas veio dizer que respeitava a sua elevadíssima opinião. De um Ministro como Relvas, esperava-se que não percebesse que invectiva não é opinião. Mas esperava-se também, e por maioria de razão, um gesto ribatejano: que em português não de se diz «tomar no cu», mas antes «apanhar» ou «levar» e que, por muitos e indiscutíveis motivos, o «nosso Francisco» é que deveria ser sujeito ao tratamento.

Há um temor reverencial pelo que passa nos telejornais (e pela comunicação social em geral). Depois há os quadros mentais das cabecinhas iletradas que povoam as redacções. E, finalmente, há esses quadros mentais a serem inquisitorialmente alimentados e filtrados pela ditadura cultural da esquerda politicamente correcta. Um tipo fala destas coisas e não consegue deixar de lembrar cercos à AR (nessa altura era Assembleia Constituinte, mas o papel de PC, UDP – agora BE – e seus muchachos é o mesmo), das perseguições da nomenclatura PC a intelectuais desalinhados com a vulgata, de jornais encerrados e jornalistas mais ou menos violentamente perseguidos e pressionados. Hoje há mais volatilidade, mais saltinhos de quem cultiva com método a ejaculção precoce, mais excitaçõezinhas e engraçadismos patetas. Não tenho a certeza acerca do que seja mais perigoso.

Imagine-se o embaraço mediático (e dos políticos deste tipo de esquerda) se os membros da troika aparecessem para a semana, um vestido com uma camisola estampada com a cara de um daqueles assassinos que a esquerda idolatra; outro, de mão dada com o seu parceiro gay com quem tinha acabado da contrair matrimónio; e o «escurinho» do Sr. Carlos, ataviado com os panos e as plumas da sua etnia de origem mais uma banda de músicos da tribo.

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