Cacilheiros ou castanhas?

by jfc

Transformar um cacilheiro em obra de arte, dizem os títulos dos jornais. E, pergunto eu, quem opera essa mágica transformação? Um nome aposto à ideia, muito dinheiro, e a complacência, se não mesmo a admiração, da comunicação social. E acrescenta esta: o Estado apenas participa com cento e setenta e cinco mil euros, o resto são cedências aqui e ali e patrocínios privados, num montante total acima dos trezentos mil.

Dentro do cacilheiro, que será revestido com azulejos que mostram Lisboa, haverá uma instalação têxtil (com «ambiente uterino») e uma programação de fado e conferências.

É pena.

Eu tenho uma ideia que sairia muito mais barata, se alguém estivesse interessado em não gastar tanto dinheiro, o que não é possível, pois, curiosamente, as políticas culturais do Estado legitimam-se através da distribuição de fundos públicos a este género de coisas e de gente.

Ora, eu proporia montar uma banca móvel de venda de castanhas assadas. Resolveria igualmente o problema do espaço. A contratação de um vendedor de castanhas (seguindo a metodologia artística joanina) e respectivo estaminé (transformado ou adaptado, de acordo com a mesma metodologia) ficaria, imagino, por uns meros cem mil euros! Acho que bastaria, e ainda daria para almoçar nalguma tasca veneziana a ver passar os vaporetti. A programação centrar-se-ia sobretudo no próprio vendedor, pois o homem haveria de saber trautear decerto dois ou três fados e assobiar mais algumas melodias avulsas. À noite, depois de umas generosas grappas locais, ele próprio discursaria prolixamente sobre as artes em geral e a assadura das castanhas em particular.

Agora a sério: o vestuário a rigor do vendedor de castanhas não poderia constituir, sem grande intervenção, apenas com uns enchimentos e lantejoulas, mandadas fazer a uma costureira de Alfama para lhes dar o toque mágico da autenticidade, não poderia constituir, dizia eu, uma verdadeira instalação têxtil? Com a vantagem de ser permanentemente usada. A fornalha de assar as castanhas (encomendada a uma olaria, mas com uma forma original, de caravela), mais do que ambiente uterino, constituir-se-ia (e isso poderia ser explicado num ecrã digital instalado como espelho da carripana das castanhas) no símbolo da criação, do fogo criador e transformador.

No interior da banca haveria uma reconstituição da Torre de Belém, toda feita com fósforos. E mesmo isso sair-me-ia relativamente barato, já existe feito (embora sem glória para os seus autores).

Mas, sobretudo, a ideia que conceptualmente me parece ser avassaladora é que, muito para além da interacção entre o público e obra-de-arte, hoje um lugar-comum, embora um lugar-comum fundamental, entenda-se, a obra-de-arte poderia ser deglutida e transformada pelo próprio público, que deambularia pela Bienal literalmente com a arte nos olhos, nas mãos, no nariz e… na barriga.

E isto estou certo que me abriria as portas da Internacionalização e do Palácio, não de Versalhes, mas da Bela Adormecida.

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