Ratzinger / Bento XVI

by offarinha

Para a minha prima Eduarda

Ratzinger/Bento XVI é um dos mais lúcidos e certeiros pensadores contemporâneos, sobretudo quando reflecte sobre essa mesma contemporaneidade. Trata-se de uma constatação que não é afectada por considerações religiosas, filosóficas, de género, políticas ou seja lá quais forem e, muito menos, por concordâncias e discordâncias gerais ou parciais. Dito isto, e por causa disto, tem sido, aliás, divertidíssimo assistir (e agora por maioria de razão pelo inédito da situação) às imbecilidades mediáticas para todos os gostos e costumes, bem como aos comentários de género político-futebolístico que ignoram com entusiasmo inocente a gramática e a mundividência propostas por Ratzinger – discursos que falam de tudo menos daquilo sobre o que dizem estar a falar. Que este comportamento é o comportamento desta gente, já se sabe. Aqui o ridículo só aumenta pela dimensão do lance. O clero português (e alguns acólitos leigos) tem sido, com louváveis excepções, prodigioso nos contorcionismos malabares. É que estes conhecem (por devoção e obrigação profissional) o pensamento do Papa e quais as suas consequências para a Igreja e para o mundo. Sobretudo, não o podem ignorar, nem fazer de conta que não perceberam bem e, muito menos, hostilizá-lo. Com os seus tiques moderninhos e complacentes, e abrangentes, e progressistas, e dialogantes, optam pela maquilhagem e pelo trejeito. Só que são uma maquilhagem pateticamente esborratada e um trejeito desastrado sob os quais são evidentes os padres e frades de passeata, os bispos parlapatões e até um cardeal alheado e pusilânime. Não são todos, se calhar nem são a maioria, mas são muitos e, pelo princípio da atracção da semelhança, sempre muito presentes.
Para mim, que não sou crente e que, não sendo anticlerical, sustento inúmeras reservas sobre os feitos (passados e presentes) da Igreja, que discordo liminarmente das críticas de Ratzinger (de resto na linha da doutrina social da Igreja) ao liberalismo económico – embora seja obrigado a considerá-las um inevitável corolário -, que não me incomodo especialmente com as questões de género e de moral sexual, que sou muito mais céptico do que ele (et pour cause) acerca da condição do homem, o que me interessa em Ratzinger/Bento XVI é o seu olhar crítico sobre a modernidade. Destaco três pontos:
Primo. A consistente e sistemática denúncia do relativismo. A sociedade contemporânea vive obcecada com aquilo que um outro filósofo alemão designou, há mais de duzentos anos, por «querido eu». É em torno dos supostos esplendores de uma subjectividade desenraízada (achismos e opiniões, sentimentalismos lamechas, hedonismo imediatista, psicologismos de origem variada, etc.) que pretende construir e interpretar o mundo dos homens. Mais recentemente, este mesmo tropos difundiu a sua versão colectiva no balofo, detestável e perigoso multiculturalismo. Este universo individual e colectivo do «tanto faz», do «tudo se equivale», da arbitrariedade sustentada em criérios falaciosos, da tirania das maiorias, foi desde sempre combatido por Ratzinger. Para ele, a inquietante busca de uma Verdade que confira solidez, enquadre e oriente a subjectividade, ou seja, a enraize, é o essencial. Dito de outra forma mais simples, valores com base nos quais e ao redor dos quais a vida se organize. Não se trata de sufocar sentimentos, de extirpar prazeres, de eliminar ou diminuir a liberdade individual ou de suprimir o abençoado diálogo entre culturas. Muito pelo contrário, trata-se, outrossim, de estabelecer hierarquias e prioridades, limites e precedências. Assim, «a coragem», «a humildade» e «a superior inteligência» de que hoje se fala abundantemente a propósito da renúncia não valem, na perspectiva de Ratzinger, nada em si mesmos. O seu valor apenas lhes poderá advir da relação que mantiverem (ou não) com o que lhes atribua significado como princípio de acção ou os oriente para uma finalidade. Ignorar isto é reduzir tudo ao subjectivismo psicologista, tão ao gosto do mundo de hoje. Neste caso concreto, é ler o gesto de Bento XVI segundo um idioma e uma gramática que lhe são estranhos e que ele tem sistematicamente rejeitado.
Secundo. A concepção do Homem. A Axiologia de Ratzinger procede de uma Antropologia. A sua concepção da Alma, vai-a buscar aos grandes autores clássicos e medievais: tensão entre três componentes essenciais e inseparáveis sob pena de dano irremediável – o Espírito, a Razão e a Fé. Ao contrário da narrativa habitual sobre a modernidade, esta não se define, nem apenas nem sobretudo, pela menorização ou eliminação da Fé. O que o século XVII inaugurou foi, em primeiro lugar uma cisão deliberada entre os três componentes e, depois, uma redução e assimilação da Alma à Razão e aos seus correlatos Ciência, Progresso e Liberdade que, por esta via, a justificam tautologicamente. Esta concepção é a que se prolonga e hipertrofiza até aos nossos dias e, apesar de hoje se poder ter uma perspectiva clara acerca da sua intrínseca associação com diversas e recentes manifestações do Mal, estranhamente (ou talvez não) não são muitos os que têm reflectido sobre ela. Não é o caso de Ratzinger/Bento XVI que se afasta das tais maquilhagens patéticas e se proclama, deste ponto de vista, descomplexadamente anti-moderno, minoritário e contra corrente com o espírito do tempo. E, em alternativa, propõe a recuperação de uma visão plural e pluripolar de Alma contra os reducionismos fideístas, ultramontanos, racionalistas, cientistas, positivistas, materialistas, etc..
Tertio. Questões de Ética pessoal e social. Percebe-se que, se Ratzinger fosse apenas Ratzinger, e não também Bento XVI, estas questões seriam irrelevantes para quem desta forma as considera. Como não é, fala-se de «elitismo», de «ser um intelectual», da «inacessibilidade às massas», de «não atrair mais ovelhas ao rebanho e antes as afastar». O pensamento forte de Ratzinger/Bento XVI manifesta-se precisamente neste alheamento ao soundbyte, ao politicamente correcto, ao ruído e incandescência da sociedade do espectáculo, à cedência à tirania das maiorias, sempre efémeras e evanescentes. E, agnóstico, confesso que espero e estou em crer que este tipo de pressões terão sido alheias à renúncia. Se há teses essenciais ao que é humano em todas as suas dimensões, essas são as que respondem a problemas éticos, pessoais e sociais. Constituir uma ética aplicada alicerçada numa superação das facilidades do (falso) óbvio e numa concepção exigente do Homem pode parece distante aos idiotas do costume, mas deve interpelar serenamente todos os outros e exaltá-los na sua inquietação.

O pensamento de Ratzinger/Bento XVI está felizmente acessível a toda a gente. Atrevo-me a sugerir isto, uma das coisas mais estimulantes,inteligentes e comoventes (cá está a tal pluralidade da Alma, ainda que sem Fé) acerca dos tempos de hoje e do Homem de sempre.

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