Assistência Externa

by offarinha

A última obra de António Mega Ferreira (Cartas de Casanova – Lisboa 1757, Sextante Editora) é um divertimento à maneira do Empfindsamkeit. Não cabe aqui a avaliação dos seus méritos literários – que são muitos e o menor dos quais não é decerto a habilíssima, e hoje cada vez mais invulgar, utilização da língua portuguesa. O tema e a trama resumem-se a isto: Casanova vai dando conta, em seis cartas com destinatários diversos (apenas um se repete), das suas impressões acerca da Lisboa devastada pelo terramoto. Dá a conhecer diversas personagens (por carácter, ocupação, condição social e, obviamente, género) que com ele se vão cruzando nas suas deambulações; descreve locais (a visão da Baixa destruída é admirável) e situações (o episódio na grade do Convento de Odivelas é divertidíssimo); relata os lances amorosos (a cena de sedução da Carta Terceira a partir da hermenêutica de La Princesse de Clèves , que poderia facilmente resvalar para um exercício ridículo ou pretensioso, é irresistível), políticos e sociais em que participa. Tudo isto é apresentado numa combinação equilibrada de erudição, inteligência, subtileza, concisão e elegância próprias do tal «estilo sensível».
Mas o que sobressai de tudo isto (e trata-se decerto de uma intenção deliberada, embora discretamente ocultada pelo autor numa quase homenagem paródica às convenções da época em que decorre a acção) não é nem Casanova, nem Lisboa, nem sequer o terramoto e os seus desastres. O que ocupa o primeiro plano é a exposição, através do olhar distanciado de um estrangeiro de passagem, da atitude dos lisboetas face à sua tragédia excepcional. E, se o desatre fora imenso, o relato de Casanova permite adivinhar um desatre ainda maior. Apenas a título de exemplo o que vai emergindo é: falta de convicção e energia; abissal ignorância na compreensão e no diagnóstico só comparável à ausência de sentido prático no planeamento e na decisão; alheamento, estupor aturdido e espírito errático; indolência e desleixo, muito desleixo; aristocracia ignorante, boçal, bisonha e provinciana; clero estúpido, fanático e supersticioso; intelectualidade semi-letrada, pomposa e inconsequente (pintores não há, os músicos são estrangeiros e os literatos são ridículos e enfatuados); a burguesia é praticamente toda ela constituída por estrangeiros olhados com desconfiança; o povo é miserável e anómico (mendigos, assassinos e ladrões); mesmo os que se salientam, não passam da mediocridade («Sebastião José é um homem astuto, prático e eficaz», mas «não é um espírito esclarecido, muito menos iluminado».
Ruínas a deambular entre ruínas, parecem personagens de uma ópera apocalíptica encenada nos destroços da Ópera do Tejo. Oscilam entre a resignação ao entulho e o luxuoso provimento de barracas habitadas pelas elites que, mesmos Reais, não deixam por isso de ser barracas – metáforas devastadoras de um estado de espírito. Parece que o autor, usando o «seu» Casanova, pretende sinalizar que esta gente de barracas e fachadas, posto à prova num transe decisivo, não sabe (ou é incapaz) de lhe responder adequadamente. Se o abalo de 1755 inicia a nossa modernidade, a forma como (não) cicatrizámos a ferida, antecipa a inconsistência e o atabalhoamento como abordámos, como Nação e como Estado, os abalos e as feridas que se foram sucedendo, ciclica e impiedosamente, quase ininterruptamente desde então (invasões francesas, fuga da Corte, presença inglesa, guerra civil, I República, Estado Novo e o estado actual de coisas).

Por singular coincidência, foi lançada simultaneamente uma excelente obra de Paulo Varela Gomes (O Verão de 2012, Edições Tinta-da-China) que recorre, embora apenas de forma episódica, ao mesmo processo. Ao longo do romance (de novo registo o tal excelente uso da língua que não constitui o único mérito do livro, embora fosse proveitoso abordá-lo de outras perspectivas), relatado pelo médico do protagonista que é P., vamos tomando conhecimento da evolução deste até ao convulsivo clímax final, quer através das impressões do narrador, quer de notas e cartas (de novo!) enviadas por P. Sabemos desta forma que P. conhece exaustivamente as impressões – desta feita reais e não ficcionadas – que visitantes estrangeiros mais ou menos conhecidos deixaram das suas visitas ao longo dos séculos XVIII e XIX . E, o que é relevante para o que aqui importa, usa abundante e obsessivamente estes textos para legitimar a visão que constroi dos portugueses e, na sua sequência, a decisão que constitui o desfecho da obra.

Portugueses que olham os portugueses por intermédio de estrangeiros, lucidez que se pretende firmar pelo distanciamento exterior… Sem desprimor ou preconceito, também aqui se pode falar de assistência externa.

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