O Noivado do Sepulcro

by offarinha

Ia “alta a lua na mansão da morte” quando “branco fantasma semelhante a um monge / dentre as sepulturas a cabeça ergueu”. Sabe-se que “não achou ninguém” e suspeitou de traição – “quem d’entre os vivos se lembrará ainda / do pobre morto que na terra jaz?” O resto da história é conhecida: “a formosa virgem” quer-se unida para sempre a ele, celebram os sinistros esponsais e, no fim, ” dois esqueletos, um ao outro unido / foram achados num sepulcro só”. Quem são, pois, os dois esqueletos?

No Largo do Rato a maioria não tem dúvidas que o noivo é Sócrates e a noiva Seguro. Mas há facções que juram ser esta Costa. Outros optam por Seguro e Costa. Há quem diga que Sócrates se fez representar no transe por Silva Pereira. Franjas minoritárias aventam nomes como Zorrinho, Assis, Basílio Horta (sempre pronto para este tipo de fretes) e outros só conhecidos por quem os conhece. Os deputados Galamba e Isabel Moreira afastaram-se da polémica: « Só comentamos noivados LGBT ou, pelo menos, com mais de dois parceiros».

Pacheco Pereira declarou que na tumba nunca poderá estar Costa: «Se ele lá estivesse eu estaria com ele». O Professor Marcelo analisou com maior abrangência: «São todos os citados e os que ainda não o foram mas podem vir a ser. Só que à vez!» Os habituais comentadores foram unânimes numa estranha interpretação: «Trata-se de Soares e Alegre» o que, segundo eles, «tem um significado político transcendente cujo alcance só se avaliará nas presidenciais de 2037». Apenas Daniel Oliveira divergiu – «são Bagão Felix e Cavaco».

Mais cosmopolita, Nuno Rogeiro afirma convictamente que se trata das verdadeiras ossadas de Ricardo III mais as do famoso cavalo. O Bloco, temendo graças fáceis sobre Catarina Martins e Semedo, manteve-se alheado e o PC, através de um porta voz, limitou-se a declarar que, acerca de cadáveres, só falava de Cunhal e Catarina Eufémia que, como todo o povo trabalhador sabe, não são bem cadáveres.

Almeida Santos foi exemplar e definitivo. Comovido e sábio, pôs fim à polémica: «Agora já há paz!»

 

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